Denominações de Origem
Um Conceito da Cultura Mediterrânica
Quando Howard Cárter, em 1922, fez a sensacional descoberta do túmulo de Tutankhamon, em Tebas, no Vale dos Reis, estaria longe de pensar que iria permitir que se fizesse luz sobre muitos aspectos relacionados com a produção de vinho no Antigo Egipto.
Foi encontrada uma impressionante colecção de 26 potes de vinho, num dos quatro compartimentos anexos ao túmulo, com inscrições tão pormenorizadas sobre os vinhos, que em nada ficam a dever aos rótulos das melhores garrafas da actualidade.
Nelas estava indicado o tipo de vinho, o ano de colheita, de acordo com os anos do reinado de Tutankhamon, a origem geográfica da vinha, o nome do proprietário da vinha e o nome do “enólogo” responsável pelo fabrico do vinho!
O exemplo seguinte dá bem ideia do cuidado posto na regulamentação da rotulagem da época:”Ano 4 (1345 a.C). Vinho doce da casa de Aton – Vida, Prosperidade, Saúde! – do rio Oeste (braço do Nilo que desagua perto da moderna Alexandria). Produtor chefe Àperershop”. Como se pode verificar, já então de dava grande importância à origem geográfica das vinhas, numa e precoce antecipação ao conceito de denominação de origem.
Na Roma Antiga dava-se grande importância à origem geográfica dos vinhos. A lista mais completa que se conhece encontra-se no Livro XIV de Plínio, o Velho, que procurou, como ele diz no fim do seu texto, fazer uma lista de todos os vinhos do seu país (e acessoriamente da Gália e da Hispânia) que merecessem ser conhecidos. Entre eles, e apenas a título de exemplo, citemos o Albanum, Falerno, Guaranum, Messina, Setia, Sorrento, Taormina e Velletri.
Muitos outros exemplos da Antiguidade se poderiam referir para enaltecer a importância que, no mundo mediterrânico, sempre se deu à origem geográfica dos vinhos.
A longa tradição na cultura da vinha e na produção vinícola foi suficiente para os apreciadores saberem quais as regiões onde eram produzidos os melhores vinhos e, naturalmente, atribuírem-lhes o nome da região de origem.
Tal designação era uma marca colectiva pertença de todos os produtores dessa região, confundindo-se, quase sempre, com aquilo que hoje se convenciona chamar “denominação de origem”.
Mais do que uma indicação de proveniência, a marca geográfica colectiva garantia, para além da origem, a qualidade específica dos vinhos, resultante das condições naturais em que as uvas eram produzidas e do conhecimento e arte dos homens que os faziam.
Com as invasões bárbaras, o comércio de vinhos, que tão grande desenvolvimento tinha tido no império romano, foi abrandando, até que estagnou no seio das sociedades feudais. Neste período a estrutura produtiva do vinho foi reduzida e orientada para o auto consumo local e regional.
O comércio do vinho só seria lentamente recuperado muito mais tarde, ainda na Idade Média, com o desenvolvimento urbano e o aparecimento de uma classe burguesa com dinheiro e ávida de bem-estar.
Só no séc. XVII, ganhou desenvolvimento suficiente para desencadear lutas de interesses.
De um lado estavam os produtores, que desejam conservar o direito a um nome cuja fama resultava do esforço do seu trabalho e saber, bem como das condições naturais – solo, clima, exposição, declive, castas, - em que as uvas eram produzidas; do outro lado, estavam aqueles que se aproveitavam do prestígio dessas denominações para eles tirarem lucros ilegítimos e, muitas vezes exorbitantes.
O exemplo mais elucidativo desta situação ocorreu no Douro, quando a excelência dos seus vinhos foi reconhecida pelos ingleses.
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